A política brasileira tem dessas sutilezas elegantes: quando o prazo de validade simbólica expira, a saída nunca é chamada de descarte, mas de “decisão pessoal amadurecida”. É nesse roteiro conhecido que se encaixa a possível saída de Anielle Franco do Ministério da Igualdade Racial — uma pasta criada mais para sinalizar virtude do que para produzir resultados concretos.
Enquanto o sobrenome Franco rendia dividendos eleitorais, holofotes internacionais e narrativas convenientes, Anielle foi alçada ao ministério como herdeira direta de um capital político construído sobre o martírio da irmã, Marielle. Mas política, como mercado, não tolera ativos desvalorizados. Com o avanço das investigações que apontaram como mandantes do crime figuras ligadas ao mesmo ecossistema político que o PT sempre frequentou no Rio de Janeiro, a narrativa confortável desmoronou. Já não dava mais para terceirizar a culpa, nem para explorar o discurso seletivo de indignação.
Esgotado o uso político da tragédia, esvaziou-se também o espaço da ministra. A saída, claro, vem embalada em tom nobre: candidatura a deputada federal, “novo desafio”, “construção coletiva”. Nada mais brasileiro do que transformar um empurrão discreto em gesto voluntário de grandeza.
Anielle garante que ainda “vai alinhar os detalhes com o presidente Lula”, como se a decisão fosse fruto de reflexão íntima, e não de uma planilha fria do Planalto avaliando custo-benefício eleitoral. A ironia é que, no fim, a ministra da Igualdade Racial não escolhe nem quando sai, nem quem entra em seu lugar — apenas confirma o óbvio: quem manda decide.
Assim, o governo encerra mais um capítulo de simbolismo conveniente. O ministério segue, o discurso permanece, e a memória de Marielle, antes bandeira permanente, vai sendo guardada na gaveta das causas que só importam enquanto rendem votos. Na política do PT, a igualdade pode até ser racial, mas a utilidade é sempre circunstancial.
Fonte: Portal Opinião Brasília



