Os resultados eleitorais, diz Marsiglia, tendem a aparecer com o tempo. Na política, como na poesia, o trajeto costuma dizer mais do que o ponto de chegada.
A caminhada liderada pelo deputado Nikolas Ferreira rumo a Brasília, que se encerrou neste domingo (25) com uma concentração de dezenas de milhares de pessoas, ganhou contornos que vão além de um ato político pontual. Para o jurista André Marsiglia, advogado e professor de Direito, o valor central do movimento não está em um resultado imediato ou em uma pauta específica, mas no próprio percurso. A ideia, segundo ele, dialoga com o verso do poeta Antonio Machado: o caminho se faz ao caminhar — e, na política, o gesto coletivo pode ser tão relevante quanto a chegada.
Na leitura de Marsiglia, o efeito mais visível da mobilização foi simbólico e organizacional. A caminhada teria funcionado como um catalisador para reenergizar uma direita que, nos últimos meses, se mostrava dispersa, silenciosa e desmotivada. Ao colocar pessoas nas ruas, o movimento rompeu a inércia e reativou redes de apoio, militância e articulação que estavam adormecidas, recolocando a oposição no espaço público.
Esse reposicionamento ajuda a explicar a reação institucional ao ato. Decisões recentes do Supremo Tribunal Federal, que mencionaram diretamente o deputado e a mobilização, são interpretadas por Marsiglia como um sinal de preocupação com a capacidade de aglutinação demonstrada. Para o jurista, o temor não é das ruas em si, mas do que elas representam: a retomada do protagonismo popular como instrumento legítimo de pressão política.
O argumento central é que fazer política não se limita a gabinetes, redes sociais ou ao plenário do Congresso. Quando esses espaços se mostram insuficientes ou fechados, a rua reaparece como arena democrática clássica. Na visão de Marsiglia, a mobilização evidencia que manifestações pacíficas continuam sendo um termômetro da vontade popular, mesmo em um ambiente institucional marcado por tensões e desconfianças.
Outro ponto destacado é o surgimento — ou a consolidação — de novas lideranças. Com a principal referência da direita impedida de exercer plenamente a articulação política, Nikolas Ferreira teria assumido um papel de coordenação momentânea, reunindo parlamentares e apoiadores em torno de uma agenda comum. Marsiglia ressalta que, diferentemente de campos políticos mais centralizados, a direita brasileira passa a operar com múltiplas lideranças, o que amplia sua resiliência e capacidade de renovação.
A análise do jurista aponta para uma conclusão pragmática: a caminhada já produziu seus efeitos. Independentemente de desdobramentos imediatos, o percurso cumpriu a função de reorganizar forças, testar lideranças e recolocar a oposição em movimento. Os resultados eleitorais, diz Marsiglia, tendem a aparecer com o tempo. Na política, como na poesia, o trajeto costuma dizer mais do que o ponto de chegada.
Portal Novo Norte



