Muitas fardas, poucos votos concentrados: divisão ameaça representação dos policiais do DF

Com pelo menos 15 policiais militares disputando a CLDF e outros nomes tentando chegar à Câmara Federal, multiplicação de candidaturas pode transformar a força eleitoral da categoria em fragmentação. Hermeto larga em vantagem entre os distritais, enquanto Sargento Eliomar tenta recuperar votação expressiva que alcançou em 2018

A Polícia Militar do Distrito Federal possui milhares de integrantes, além de aposentados, familiares e um amplo círculo social ligado à segurança pública. Em tese, trata-se de um segmento com potencial suficiente para eleger representantes tanto para a Câmara Legislativa quanto para a Câmara dos Deputados.

O problema começa quando essa força eleitoral é dividida entre candidatos demais.

Em 2026, policiais militares aparecem espalhados por diferentes legendas e, em alguns casos, disputando votos até dentro do mesmo partido. A pergunta que a própria categoria deveria fazer é simples: quanto maior o número de candidatos policiais, maior será a representação da PMDF ou maior será a pulverização dos votos?

A eleição proporcional não premia apenas popularidade. Ela combina votação individual com desempenho partidário. Isso significa que milhares de votos divididos entre diversos candidatos podem não produzir cadeira alguma, enquanto uma votação mais concentrada, dentro de uma legenda competitiva, pode transformar-se em mandato.

É nesse cenário que alguns nomes chegam mais fortes do que outros.

Hermeto: hoje, o policial mais próximo de uma cadeira na CLDF

Entre os candidatos analisados para deputado distrital, Hermeto (MDB) possui uma vantagem objetiva: já venceu duas eleições.

Em 2018, conquistou seu primeiro mandato com 11.552 votos. Quatro anos depois, praticamente dobrou esse patrimônio eleitoral e chegou a 22.332 votos.

Agora busca o terceiro mandato.

Além disso, pesquisas recentes indicam presença eleitoral relevante. O levantamento do Instituto Igape realizado entre 25 e 29 de agosto colocou Hermeto com 1,9% das intenções de voto.

Há, entretanto, um detalhe ainda mais importante. Hermeto conseguiu algo que todo candidato oriundo da Polícia Militar precisa fazer para se tornar verdadeiramente competitivo: sair dos quartéis e chegar às comunidades.

Candangolândia, Núcleo Bandeirante, Park Way e Riacho Fundo estão entre as regiões onde o deputado construiu presença política. Dessa forma, o eleitorado policial funciona como uma de suas bases, mas não como a única.

Essa talvez seja sua maior vantagem.

O problema está dentro do próprio MDB. Jaqueline Silva e Wellington Luiz aparecem fortes, enquanto Iolando também disputa espaço. Dependendo de quantas cadeiras o partido conquistar, a briga interna poderá ser apertada.

Ainda assim, entre os policiais analisados para a CLDF, Hermeto é hoje o nome que apresenta a combinação mais consistente de mandato, votação anterior, presença territorial e desempenho nas pesquisas.

Jabá Arruda: existe uma base, mas ela precisa crescer

Jabá Arruda também não pode ser tratado como um candidato sem eleitorado. Em 2018, conquistou 6.218 votos. Em 2022, aumentou ligeiramente sua votação e chegou a 6.632. Existe, portanto, um núcleo relativamente fiel de eleitores.

O problema é que, em uma eleição tão disputada, permanecer na casa dos 6 mil votos provavelmente não será suficiente. Jabá precisa romper essa barreira e alcançar eleitores que vão além de seu círculo tradicional.

No Igape de agosto, apareceu com 0,3%.

Sua candidatura pelo PSD também dependerá diretamente do desempenho da legenda. Quanto mais cadeiras o partido estiver em condições de disputar, maior será a possibilidade de candidatos intermediários entrarem na briga.

Um fator extra pode comprometer o desempenho de Jabá: apesar de ainda existirem muitos policiais simpatizantes do ex-governador José Roberto Arruda, as questões jurídicas que norteiam seu nome para o governo do DF tem causado incertezas entre os eleitores de ambos. Arruda teve o registro de sua candidatura negada pelo TRE-DF no último dia 3 de setembro por unanimidade e a categoria não quer mais desperdiçar seus votos.

Hoje, Jabá ainda precisa apresentar crescimento considerável para ser colocado no mesmo patamar eleitoral de Hermeto.

Subtenente Geraldo e Capitão Aderivaldo enfrentam um problema adicional

Subtenente Geraldo Alves e Capitão Aderivaldo Cardoso disputam pelo Podemos. Ambos apareceram com 0,3% no levantamento do Igape de agosto.

O desafio dos dois talvez seja ainda maior porque enfrentam concorrência dentro da própria nominata.

O Podemos possui candidatos conhecidos e outros nomes oriundos das forças de segurança. Portanto, Geraldo e Aderivaldo não disputam apenas contra candidatos do MDB, PSD, PL ou de outras legendas. Eles precisam primeiro conseguir posições competitivas dentro do próprio partido.

Aderivaldo possui experiência eleitoral. Em 2014, obteve 1.813 votos para deputado distrital e, em 2022, recebeu 1.455 votos concorrendo à Câmara dos Deputados.

São números que demonstram uma base, mas ainda distante de uma votação capaz de colocar sua eleição como provável.

Para ambos, será fundamental ampliar o discurso. O candidato policial que conversar apenas com policial corre o risco de disputar uma fatia cada vez menor de um eleitorado cada vez mais dividido.

Sargento Eliomar: 17 mil votos no passado mostram que existe potencial

Na disputa pela Câmara dos Deputados, um nome merece uma análise particular: Sargento Eliomar Rodrigues.

Eliomar Rodrigues de Souza está registrado como candidato a deputado federal pelo PSD, número 5545, com candidatura deferida. Sua ocupação declarada à Justiça Eleitoral é policial militar.

Seu histórico eleitoral apresenta uma característica interessante.

Em 2014, disputando uma vaga de deputado distrital pelo PRTB, obteve 598 votos e ficou como suplente. Em 2018 decidiu concorrer a deputado federal pelo PTC e deu um salto impressionante: recebeu 17.265 votos. Não foi eleito, mas demonstrou capacidade de mobilização muito superior à apresentada quatro anos antes.

Em 2022 ocorreu o movimento inverso. Eliomar voltou a disputar uma cadeira na Câmara Legislativa, dessa vez pelo PSC, e terminou com 1.749 votos.

Agora retorna justamente ao cargo no qual apresentou seu melhor desempenho.

Isso torna sua candidatura interessante, mas também coloca uma enorme interrogação sobre 2026: Eliomar conseguirá recuperar os mais de 17 mil eleitores que teve em 2018 ou aquela votação pertence a uma conjuntura política que já passou?

Essa é a pergunta que sua campanha terá de responder nas urnas.

Eliomar e Pardal disputam uma eleição muito mais difícil

Também candidato a deputado federal, Sargento Maurício Pardal concorre pelo Podemos, número 2030. Eliomar está no PSD. Ambos disputam uma das apenas oito cadeiras do Distrito Federal na Câmara dos Deputados. As duas candidaturas constam das listas eleitorais de 2026.

A disputa federal é brutal.

Para se ter uma dimensão, em 2018 o menor número de votos entre os oito deputados federais eleitos pelo DF foi de 31.610. Naquele ano, Eliomar teve 17.265 e ficou fora. Em 2022, devido à dinâmica partidária, houve eleito com 20.923 votos — demonstração clara de que a votação nominal isoladamente não determina quem conquista a cadeira.

Portanto, para Eliomar, recuperar simplesmente os 17 mil votos de 2018 talvez não seja suficiente. Ele precisa crescer e, simultaneamente, contar com um PSD forte na disputa federal.

O voto militar dividido pode eleger menos, não mais

Esse talvez seja o ponto que merece maior reflexão.

É legítimo que qualquer policial militar que preencha os requisitos legais coloque seu nome à disposição da sociedade. Ninguém deve ser impedido de concorrer porque outro integrante da categoria já está na disputa.

Mas política eleitoral também envolve matemática.

Se existe um determinado universo de eleitores que deseja aumentar a representação das forças de segurança e esse universo distribui seus votos entre dez, quinze ou vinte candidatos, o resultado pode ser exatamente o contrário do pretendido.

Muitos candidatos não significam necessariamente muitos eleitos.

Podem significar muitos candidatos com 2 mil, 3 mil ou 5 mil votos — e nenhuma cadeira.

Por isso, a reta final tende naturalmente a revelar quais candidaturas conseguiram romper a bolha corporativa e alcançar a sociedade.

A farda abre portas, mas não garante mandato

Existe outro erro que precisa ser evitado: acreditar que pertencer à Polícia Militar seja suficiente para conquistar o voto dos próprios policiais.

Não é.

O eleitor da segurança pública também avalia mandato, propostas, presença na categoria, atuação parlamentar, relacionamento com a tropa e capacidade política para produzir resultados concretos.

Nesse aspecto, Hermeto possui uma vantagem evidente entre os distritais porque pode apresentar dois mandatos e uma votação crescente entre 2018 e 2022.

Eliomar, por sua vez, possui um dado eleitoral que merece respeito na disputa federal: já conseguiu convencer mais de 17 mil eleitores a votar nele para exatamente o mesmo cargo que disputa agora.

Isso não garante eleição, mas demonstra potencial.

Jabá possui uma base intermediária. Geraldo e Aderivaldo precisam crescer. Pardal enfrenta uma disputa federal ainda mais complexa e precisa demonstrar sua dimensão eleitoral durante a campanha.

A categoria terá de decidir entre quantidade e representação

Chegando à reta decisiva, a questão deixa de ser simplesmente quantos policiais estão candidatos.

A pergunta realmente importante é: quantos possuem estrutura, voto, partido e capacidade de transformar apoio em mandato?

Hoje, Hermeto aparece como o policial militar mais bem posicionado entre os nomes analisados para a Câmara Legislativa. Na disputa federal, Eliomar merece atenção justamente pelo precedente dos 17.265 votos conquistados em 2018, embora seu desempenho de 2022 mostre que eleitorado não é patrimônio permanente.

A PMDF possui força política. O que está em discussão é se essa força será convertida em representação ou diluída entre inúmeras candidaturas.

Porque, no final, a matemática eleitoral é impiedosa: a quantidade de fardas nas urnas chama atenção; o que coloca alguém dentro do Parlamento são votos concentrados, uma legenda competitiva e capacidade de falar também com quem nunca vestiu uma farda.

Fonte: Portal Opinião Brasília

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