A postura adotada pelo ex-governador Ibaneis Rocha ao praticamente anunciar um afastamento do MDB-DF da base de apoio da governadora Celina Leão caiu como uma bomba nos bastidores da política brasiliense. Mais do que uma divergência política, a movimentação foi interpretada por aliados como um gesto de ingratidão e incoerência com quem esteve ao seu lado nos momentos mais difíceis de sua trajetória no poder.
O espanto é ainda maior porque, até poucos dias atrás, Ibaneis fazia exatamente o discurso contrário. Em eventos públicos recentes — inclusive em agendas ao lado do deputado distrital Hermeto — o ex-governador rasgava elogios à governadora e declarava apoio incondicional ao projeto político de continuidade administrativa liderado por Celina.
No entanto, após reunião em sua residência com o presidente nacional do MDB, Baleia Rossi, com o presidente da CLDF e do MDB-DF, Wellington Luiz, e com o deputado federal Rafael Prudente, Ibaneis utilizou suas redes sociais para expor publicamente uma suposta decepção com Celina Leão, sinalizando, na prática, um rompimento político com a governadora.
A atitude gerou forte reação porque Celina nunca foi apenas uma aliada circunstancial. Foi, durante anos, a principal fiadora política e administrativa do governo Ibaneis. Enquanto o ex-governador enfrentava crises, desgastes institucionais e períodos de afastamento, era Celina quem assumia a linha de frente do Governo do Distrito Federal, administrando conflitos, suportando pressões políticas e mantendo estabilidade administrativa em momentos extremamente delicados.
A governadora jamais rompeu, conspirou ou trabalhou contra o grupo político. Pelo contrário: defendeu o legado do governo, protegeu aliados e sustentou a governabilidade mesmo quando muitos preferiram o silêncio ou o distanciamento estratégico. Sua postura sempre foi marcada pela lealdade, pelo equilíbrio e pela responsabilidade institucional.
Por isso, a mudança brusca de posicionamento de Ibaneis transmite uma imagem extremamente negativa para parte da base governista e para lideranças comunitárias que acompanharam de perto os bastidores dos últimos anos. A sensação deixada é a de que, após ter sido sustentado politicamente em momentos críticos, o ex-governador decidiu abandonar justamente quem nunca o abandonou.
Também pelas redes sociais, Celina Leão respondeu às declarações de forma firme, porém serena. Demonstrando evidente decepção, a governadora afirmou ter a consciência tranquila de que sempre atuou com lealdade, respeito e espírito público durante todo o período em que esteve ao lado de Ibaneis como vice-governadora.
Mas Celina também deixou claro que agora ocupa a chefia do Executivo e que isso exige responsabilidade com os fatos e compromisso com a população. Ao mencionar a grave crise herdada no BRB e o rombo bilionário nas contas públicas, a governadora sinalizou que decisões difíceis precisaram ser tomadas, ainda que contrariassem interesses políticos ou pessoais.
A fala da governadora expôs um contraste inevitável: enquanto um lado demonstra mágoa política, o outro sustenta a responsabilidade administrativa de governar um Distrito Federal mergulhado em crises herdadas. E é justamente nesse ponto que muitos eleitores começam a fazer suas próprias avaliações sobre quem permaneceu firme quando o cenário era confortável e, principalmente, quem continuou segurando a estrutura quando as tempestades chegaram.
Desde que assumiu o comando efetivo do governo, Celina Leão passou a adotar medidas de contenção administrativa e reorganização interna. Entre as ações estão pedidos de investigação, trocas em secretarias estratégicas, cancelamento de contratos considerados milionários, revisão de emendas parlamentares e suspensão de recursos de chamadas “emendas fonte 100”.
As medidas, segundo avaliações de bastidores, teriam provocado desconforto em setores políticos e grupos que integravam a base de sustentação do antigo governo. Integrantes da ala governista avaliam que a postura mais rígida da governadora ocorre diante da necessidade de reorganizar as contas públicas e garantir capacidade financeira para honrar compromissos, entre eles o pagamento do funcionalismo público.
Apesar das especulações sobre um possível rompimento, lideranças do MDB ainda evitam tratar publicamente o tema como uma ruptura definitiva. Nos bastidores, contudo, cresce a percepção de que o processo eleitoral de 2026 poderá redefinir alianças históricas dentro da política do Distrito Federal.
Na política, divergências são naturais. Mas há algo que o tempo não apaga: a memória. E Brasília sabe exatamente quem esteve presente nos momentos mais difíceis e quem recebeu lealdade absoluta quando mais precisou dela.


