A decisão da escola de samba Acadêmicos de Niterói de dedicar seu enredo do Carnaval 2026 no Rio de Janeiro ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva desencadeou uma intensa controvérsia política e jurídica no Brasil. A agremiação vai contar a trajetória de Lula — desde sua infância até sua carreira política — em pleno ano eleitoral, despertando críticas da oposição, questionamentos sobre uso de recursos públicos e dúvidas sobre se aquela não é mais uma forma de propaganda eleitoral antecipada do que uma simples homenagem artística.
O enredo, intitulado “Do alto do mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil”, e com trechos evocando jingles associados à campanha política do presidente, foi alvo de representação no Tribunal de Contas da União (TCU) e na Procuradoria-Geral Eleitoral por parlamentares dos partidos PL, Novo e Republicanos. Eles acusam a iniciativa de violar princípios como impessoalidade e moralidade no uso de recursos públicos para promover um pré-candidato antes do início oficial da campanha eleitoral.
A área técnica do TCU chegou a recomendar a suspensão de repasses federais à Liga Independente das Escolas de Samba (Liesa) — que repassa R$ 1 milhão a cada escola de samba com dinheiro da Embratur — até que se esclareça se há desvio de finalidade ao financiar um samba-enredo que exalta um presidente que será candidato.
Risco de vaias e blindagem do público
Apesar de a direção da escola afirmar ser um ato cultural e artístico, críticos alertam que isso pode facilmente se parecer com uma antecipação de campanha. Alguns ensaios já mostraram projeções satíricas envolvendo adversários políticos, o que reforça a ideia de que o desfile pode virar um ato político explícito em vez de mera celebração carnavalesca.
Espera-se que o público presente não seja tão “controlado” como em eventos patrocinados pelo PT — onde a seleção de convidados e o ambiente tendem a favorecer uma recepção positiva ao presidente. No sambódromo, onde o público é diverso e espontâneo, há o risco real de vaias e protestos dirigidos a Lula ou à própria escola, o que poderia transformar o que foi pensado como homenagem em constrangimento público e munição propaganda adversária.
Críticas da oposição: campanha antecipada e uso de dinheiro público
Parlamentares argumentam que a homenagem, dada a proximidade da eleição — marcada para outubro — pode configurar propaganda eleitoral antecipada, especialmente porque elementos do enredo e jingles rememoram diretamente símbolos associados à campanha política de Lula. Esses críticos acionaram a Justiça Eleitoral e órgãos de controle alegando que o Estado não pode financiar eventos que favoreçam um candidato em detrimento de outros, sob pena de ferir a legislação eleitoral e o princípio da impessoalidade.
Mesmo que especialistas em direito eleitoral tenham afirmado que simples homenagem artística não configura, por si só, crime eleitoral, a exploração de imagens, financiamento público e a amplitude da narrativa do enredo têm sido elementos usados pela oposição para reforçar suas críticas e ações judiciais.
Crítica: por que Lula não deveria aceitar essa homenagem?
Há um argumento crítico forte contra Lula aceitar e prestigiar esse desfile. Ao permitir que sua trajetória seja aplaudida em um dos maiores palcos culturais do país em pleno ano eleitoral, ele corre o risco de:
- Misturar cultura com campanha política, confundindo a folia com um ato de promoção pessoal em vez de expressão artística.
- Usar indiretamente recursos públicos (mesmo quando distribuídos de forma igualitária) para reforçar sua imagem eleitoral em um contexto em que adversários não têm o mesmo espaço nem a mesma visibilidade.
- Aumentar a polarização em um evento que tradicionalmente é visto como festa popular e não palanque político.
- Expor-se a vaias e protestos em um ambiente espontâneo como o sambódromo, o que pode virar símbolo de rejeição em vez de celebração.
Em vez de aceitar e prestigiar uma homenagem que pode ser interpretada como uso indevido de palco cultural em benefício eleitoral, seria mais prudente manter a distância de eventos marcados pela forte carga política e concentrar forças em campanhas e debates eleitorais formais e regulados. Isso preservaria melhor a imagem institucional da Presidência e evitaria que o Carnaval — festa do povo — fosse transformado em um campo de batalha político.
Em um país em que a democracia e a cultura são pilares da identidade nacional, confundir Carnaval com palanque eleitoral pode custar caro — nas urnas e nas arquibancadas da Sapucaí.



