A esquerda conseguiu fazer vítimas e bandidos adotarem a mesma retórica

Dia desses, um conhecido foi assaltado no Rio de Janeiro. Procedimento padrão: seu veículo foi fechado por outro carro, do qual saíram dois bandidos armados de fuzil (sim, no Rio a criminalidade urbana se dá com armamento de guerra). Na presença dos filhos pequenos e da esposa, a vítima não teve o que fazer a não ser entregar o carro, o celular, a carteira e rezar pela vida da família. Mas, afora terem feito ameaças e proferido ofensas, dessa vez os criminosos não feriram nem mataram ninguém. Trêmulo de nervoso, e ocupado em consolar seus entes queridos, meu conhecido foi socorrido por um motorista de táxi, que os levou para casa em segurança. Felizmente, dentro das possibilidades, foi um final feliz.

Infelizmente, o meu conhecido não conseguiu fazer as ligações necessárias entre causas e consequências. Ao me contar do ocorrido, declarou-se apolítico, cansado da polarização entre direita e esquerda, e atribuiu o caso a uma fatalidade, com a qual os habitantes das grandes cidades brasileiras, um país “repleto de desigualdades”, têm de acabar se acostumando. Diante das minhas ponderações, das minhas menções ao laxismo penal promovido pela esquerda nacional, à famigerada ADPF 365 (a “ADPF das Favelas”), às campanhas de demonização das PMs etc., ele se limitou a dizer que “também não gosta da esquerda”, mas que tampouco concordava com a minha linha de raciocínio, porque a polícia é violenta, porque no Brasil se prende demais e nada adianta, porque não adianta apenas ir atrás dos “pretos e pobres” (pobres com fuzis caríssimos na mão, claro está) e etc. Apolítico como é, obviamente não percebeu que, buscando fugir da polarização esquerda x direita, aceitou inconscientemente todas as premissas da esquerda sobre o tema da segurança pública.

Reproduzo a seguir o meu breve diálogo com ele.

Flávio: Medidas como a ADPF 365, bem como outras supostas ações de fiscalização da polícia, têm facilitado a atuação da criminalidade violenta no Rio e no Brasil.

Conhecido: Mas você acha que quando a policia faz algum tipo de ação tem alguém acompanhando? Eu duvido! Por isso há tanta violência policial, o que acaba gerando revolta e produzindo novos quadros para o crime.

Buscando fugir da polarização esquerda x direita, meu conhecido aceitou inconscientemente todas as premissas da esquerda sobre o tema da segurança pública

Flávio: Não, claro que não acho que a polícia seja sempre fiscalizada durante as ações. O que eu acho é que as ações da polícia quase sempre geram consequências, porque, mal ou bem, a polícia deve seguir um protocolo. Há uma série de entidades de direitos humanos, ONGs de observação da polícia, partidos políticos, jornalistas etc., dedicados 24 horas por dia a vigiar e denunciar a ação da polícia, mesmo quando ela é correta. Hoje, se um policial comete um crime, ou mesmo um erro de abordagem, as chances de ser denunciado, punido ou, no mínimo, afastado são infinitamente maiores que as de um criminoso comum, que no Brasil goza de plena impunidade. Crimes cometidos por policiais viram notícia e repercutem imensamente. Até a ONU já se envolveu em casos aqui, com base apenas na suspeita de má conduta policial.

Conhecido: Mas também há vigilância sobre os criminosos. Quando alguém resolve assumir o risco de cometer um crime, é porque já está desesperado e sem alternativas na vida.

Flávio: Discordo. Crimes bárbaros cometidos por criminosos comuns estão sendo cada vez mais banalizados, como se fossem uma fatalidade, um acidente natural com o qual devêssemos nos acostumar. Há algum tempo, por exemplo, uma menina de 5 anos foi fuzilada por assaltantes no carro dos pais. E o caso, apesar de noticiado, não gerou um décimo da comoção do que casos de violência policial excessiva e ilegal. O mesmo vale para os policiais executados em todo o estado. E por quê? Porque esses são homicídios cometidos por criminosos comuns, e, portanto, não servem à visão peculiar de segurança pública de partidos como o PT e o PSol, que consiste basicamente em acusar, sem qualquer cuidado, as forças policiais de serem fascistas, racistas e elitistas.

Conhecido: Mas os presídios estão lotados de pretos e pobres. E o que adianta? Resolve alguma coisa?

Flávio: Dos 60 mil homicídios anuais no Brasil, apenas em cerca de 8% os assassinos são descobertos. Desses 8%, uma minoria é realmente julgada e condenada à pena máxima, que, com agravantes, chega a 30 anos. Desses 30, o homicida condenado cumprirá apenas 5, graças a uma coisa chamada “regime de progressão de pena”: caso tenha tido bom comportamento, vai para o regime semiaberto depois de cumprir apenas 1/6 da pena. A grande maioria dos criminosos em regime semiaberto, evidentemente, foge e volta a delinquir. Se o homicida for menor de 18 anos, então, ficará apenas alguns meses numa “casa de reeducação”, de onde sairá com a ficha limpa, sem antecedentes. Se for novamente preso, será réu primário. E esses partidos que vivem demonizando a polícia são os principais responsáveis pela permanência desse estado de coisas. Há casos escandalosos de criminosos com 100 – cem! – passagens pela polícia, e que mesmo assim não ficaram presos. Ainda assim, a esquerda insiste em dizer que o problema do país é o “encarceramento em massa”. Ou seja, eles acham que se prende muito no país, e que é preciso prender menos. Você lembra do Tropa de Elite 2, numa cena logo no início, em que o deputado Fraga (que encarna o Marcelo Freixo no filme) está dando uma aula na universidade, na presença do próprio Marcelo Freixo real e de outros intelectuais ligados ao PSol, defendendo exatamente esta tese, a de que no Brasil se prende demais? Pois então, esses partidos e agentes de influência de extrema esquerda são os principais portadores de um discurso que, ao longo dos últimos anos, têm permitido a impunidade generalizada, a primeira e mais fundamental causa da criminalidade brasileira. Os custos de se cometer crime no Brasil são muito baixos. O criminoso não tem medo de ir preso.

Conhecido: Mas eu acho que os crimes cometidos pela polícia precisam ser denunciados mesmo. Nesse sentido, o Freixo e os outros falam de uma realidade que precisa ser exposta. Você não acha que crimes de policiais deveriam ser condenados?

Flávio: É claro que é preciso denunciar os crimes cometidos por policiais e outros agentes de segurança. O problema é, mais uma vez, a seletividade e a politização da situação. Há hoje uma indústria montada por partidos de esquerda, ONGs e movimentos sociais dedicada exclusivamente a responsabilizar a polícia pela crise de segurança pública. Só que eles agem como se a polícia atuasse num vácuo, num contexto absolutamente controlado e corriqueiro. Querem uma polícia impecável num contexto de caos completo. Dizem que temos a polícia que mais mata no mundo, quase sempre se esquecendo, convenientemente, de que temos também a polícia que mais morre. Num país campeão em homicídios no mundo, seria surpreendente termos uma polícia pacífica e bem-comportada. Nossa polícia ganha mal, tem armamentos ruins, falta de munição, veículos em estado de miséria, um sistema de inteligência precário. Nessas condições, têm de enfrentar criminosos equipados com armas “de uso exclusivo das Forças Armadas”, um eufemismo para armas de guerra – como aquela usada pelos assaltantes que aterrorizaram a tua família. Esses criminosos também aterrorizam as pessoas das favelas, impondo toque de recolher e revistas, humilhando as pessoas, ordenando torturas e execuções, invadindo propriedades, violentando mulheres e crianças. E isso já há muito tempo, sob o silêncio cúmplice de todos nós. Além disso, esses criminosos têm assassinado policiais feito moscas. Contra isso, aquelas entidades e movimentos jamais se mobilizam. Há uma espécie de ética assimétrica, que tudo exige da polícia, mas nada dos criminosos.

Conhecido: Mas se a polícia mesmo é metida com o crime organizado! Como podemos confiar?

Flávio: Sim, uma parte da polícia do Rio tem mesmo uma relação promíscua com o crime organizado. Isso existe, é claro, e precisa ser combatido com todo o rigor. Pouco se fala, por outro lado, da promiscuidade entre as ONGs de direitos humanos (quase sempre ligadas àqueles partidos de esquerda), as associações de moradores das favelas e o narcotráfico. Para atuarem nesses locais, essas ONGs precisam fazer acordo com o tráfico. Não tem outro jeito. E, mesmo no caso em que a intenção original é boa (realizar trabalhos de assistência ou caridade para as pessoas que necessitam), o fato é que elas acabam assumindo o compromisso velado de fazer vista grossa para o crime. Então, não é nem um pouco justo e equilibrado que essas entidades usem um critério desigual para julgar a polícia e o crime organizado: extremamente rigoroso com aquela; leniente com este.

Conhecido: Mas enquanto houver tanta desigualdade social no Brasil, creio que o problema da criminalidade não será resolvido a contento.

Há casos escandalosos de criminosos com 100 passagens pela polícia, e que mesmo assim não ficaram presos. Ainda assim, a esquerda insiste em dizer que o problema do país é o “encarceramento em massa”

Flávio: Aí é que você se engana. Apesar de não se assumir esquerdista, você acaba engolindo suavemente as premissas falsas da esquerda. Subjacente à visão de segurança pública de partidos como o PT e PSol, há toda uma premissa ideológica tão antiga quanto equivocada, que orienta as opiniões e ações políticas de seus militantes. Sendo socialistas, eles acham que a criminalidade é fruto do sistema capitalista, gerador de desigualdade e injustiça social. Para eles, o crime se resume a um problema de luta de classes: a polícia está de um lado, defendendo os interesses da elite branca, privilegiada etc., e o criminoso está do outro, sendo concebido como uma espécie de revolucionário ou justiceiro social, representante dos “pretos, pobres, periféricos” etc. Essa é uma associação antiga, que começou a ser adotada pela esquerda em várias partes do mundo nos anos 1960. No Rio, seu primeiro e grande expoente foi Leonel Brizola. “No meu governo, polícia não sobe morro” era seu slogan político, cujo resultado está aí: o crime organizado assumiu aquele território de maneira completa e possivelmente irreversível. O discurso do PSol e que tais é sempre o mesmo: a polícia está matando “jovens pobres e negros”. Eles só esquecem de mencionar que esses jovens e negros estão armados com fuzis AR-15 e AK-47, e que, entre suas vítimas – eis aí o que faz desmoronar a tese esquerdista –, incluem-se outros tantos jovens pobres e negros.

Há ainda um contexto histórico que é preciso lembrar. O crime organizado surgiu do encontro, no presídio de Ilha Grande, entre criminosos comuns e presos políticos de esquerda, com quem aqueles aprenderam técnicas de guerrilha urbana e assimilaram parte do discurso ideológico que liga o crime à injustiça social. Essa relação inicial produziu efeitos que até hoje se fazem sentir. Tanto que a tese do crime como uma reação dos oprimidos contra os opressores – a visão básica da esquerda brasileira sobre o assunto – continua sendo repetida por criminosos, em entrevistas, depoimentos e livros. Um dos que a professou, por exemplo, foi o traficante Nem da Rocinha: “Não acho que vá dar em nada. Os problemas do Rio não se resolvem com Exército ou polícia”, disse o bandido, e continuou criticando a política “de botar polícia na rua e endurecer penas (…) Está mais que provado que nada disso dá resultado. Nada disso funcionou até agora”.

Não é curioso que as palavras do bandido sejam quase idênticas às dos petistas e psolistas? E não é mais curioso ainda que elas sejam muito parecidas com as palavras das próprias vítimas – como é o teu caso, por exemplo?

Depois disso, o meu conhecido resolveu mudar o assunto para futebol (no qual, aliás, também não teve muita sorte).

Por Flávio Gordon-Gazeta do Povo

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