Governadora responde a Ibaneis Rocha e à cúpula do MDB, rejeita o papel de herdeira submissa e transforma reação aos ataques em demonstração pública de independência política
O vídeo divulgado pela governadora Celina Leão caiu como uma bomba silenciosa no coração do MDB do Distrito Federal. Não houve gritaria, insultos ou ataques espalhafatosos. E talvez exatamente por isso o estrago político tenha sido ainda maior. Ao afirmar que “sucessão nunca será submissão”, Celina fez mais do que responder ao ex-governador Ibaneis Rocha. Ela desmontou, com poucas palavras, o discurso construído dentro do MDB de que o atual governo deveria funcionar como simples extensão obediente do ibaneísmo.
O recado foi compreendido imediatamente nos corredores do Buriti, nos gabinetes da Câmara Legislativa e nas mesas onde a política de Brasília costuma ser decidida longe dos microfones. Celina decidiu deixar claro que não pretende carregar sozinha o desgaste político de um governo que hoje enfrenta a sombra da crise do BRB, o escândalo envolvendo o Banco Master e um rombo bilionário nas contas públicas.
A resposta da governadora veio depois da aparição pública de Ibaneis ao lado do presidente nacional do MDB, Baleia Rossi, e do presidente da Câmara Legislativa, Wellington Luiz. O vídeo parecia ensaiado para produzir um efeito político calculado. E produziu. O MDB mandava um recado público de afastamento. Mais do que isso: sinalizava que o partido começava a procurar outro caminho para 2026.
Ainda que ninguém tenha anunciado oficialmente candidatura alguma, a presença destacada de Rafael Prudente passou a ser interpretada nos bastidores como o lançamento velado de seu nome ao Palácio do Buriti. Prudente já vinha ampliando espaços políticos, fortalecendo relações internas e se movimentando com discrição cirúrgica dentro da máquina pública. O vídeo apenas retirou parte da maquiagem da operação.
Mas existe um componente ainda mais profundo nesse rompimento silencioso. Nos bastidores do governo, cresceu a insatisfação de setores políticos acostumados a circular em torno de contratos milionários que movimentam cifras bilionárias dentro da máquina pública do Distrito Federal. Ao assumir o governo, Celina Leão decidiu reduzir despesas, enxugar estruturas e cortar contratos considerados excessivos. A ordem foi diminuir gastos, conter desperdícios e tentar impedir que milhões de reais continuassem escorrendo pelo ralo da administração pública.
O movimento atingiu interesses poderosos. Contratos foram revistos, despesas reduzidas e parte da máquina pública passou a operar sob lógica mais rígida de contenção. Nos corredores do Buriti, a informação repetida reservadamente é que a governadora determinou cortes que alcançaram aproximadamente 30% de diversos contratos administrativos executados no âmbito do GDF. A medida provocou forte reação de grupos políticos e setores acostumados ao modelo anterior de funcionamento do governo.
Celina encontrou um cenário fiscal sufocante. O rombo estimado em mais de R$ 4 bilhões apenas na área econômica do Distrito Federal passou a exigir medidas impopulares e decisões politicamente arriscadas. Ao mesmo tempo, a crise envolvendo o BRB e o escândalo relacionado ao Banco Master ampliaram ainda mais o ambiente de tensão política e administrativa dentro do governo.
Foi exatamente nesse ambiente que a fala da governadora ganhou peso político. Ao dizer que herdou “uma grave crise no BRB” e “um rombo bilionário nas contas públicas”, Celina mudou o eixo da discussão. Sem elevar o tom, sem transformar a resposta em confronto vulgar e sem recorrer ao espetáculo político, vinculou os problemas atuais ao governo anterior. E deixou que a população concluísse o restante sozinha.
Fatos Online – Coluna do Mino Pedrosa


