Lula abre o caixa para conquistar eleitor de centro e empurra conta para o próximo governo

A nova aposta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na busca pela reeleição é o lançamento de mais uma edição do Desenrola – programa de renegociação de dívidas criado pelo governo –, desta vez voltado a consumidores e empresas adimplentes.

Em elaboração pela equipe econômica, o programa permitirá a renegociação de dívidas de pessoas físicas e jurídicas que mantêm seus pagamentos em dia, mas enfrentam dificuldades financeiras para honrar compromissos futuros.

Na prática, a medida amplia a estratégia de renegociação de dívidas inaugurada pelo governo em maio, quando foi lançado um programa voltado a trabalhadores com renda de até cinco salários mínimos e débitos em atraso entre 90 e 360 dias.

Para fontes ouvidas pela reportagem, a iniciativa mostra que a estratégia eleitoral do petista para 2026 está concentrando esforços não apenas em sua base, mas especialmente em uma parcela do eleitorado que costuma decidir disputas presidenciais polarizadas: os eleitores de centro.

“O foco da campanha de Sidônio [Palmeira, marqueteiro de Lula] está no chamado ‘eleitor do meio'”, afirma o estrategista eleitoral Roberto Reis. “É um eleitor sem alinhamento ideológico firme que, junto com brancos, nulos e indecisos, responde por cerca de 17% do eleitorado e deve definir o resultado de 2026.”

Custo de “bondades” ultrapassa os R$ 200 bilhões

O novo programa, que ainda enfrenta resistência do setor financeiro, soma-se a uma série de medidas anunciadas nos últimos meses voltadas a segmentos estratégicos para o governo.

Entre elas estão a ampliação do Minha Casa, Minha Vida para faixas mais altas de renda, a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil e linhas de crédito para motoristas de aplicativo, taxistas e caminhoneiros.

“Não são públicos aleatórios”, diz João Mario de França, economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). “São justamente segmentos da classe média, que historicamente demonstram maior resistência ao PT”.

Somadas, essas iniciativas já representam mais de R$ 220 bilhões em estímulos, distribuídos entre programas de crédito subsidiado, renegociação de dívidas, incentivos tributários e habitação.

França diz ter se surpreendido com a magnitude dos valores envolvidos, que já se refletem na alta das projeções de inflação e juros, além da disparada dos juros futuros e das taxas pagas pelos títulos públicos usados pelo governo para se financiar.

No ano passado, levantamentos apontavam um volume de estímulos à economia entre R$ 140 bilhões e R$ 180 bilhões para o período eleitoral. “A sensação que me dá é de que o governo fica criando novos pacotes porque o que vai sendo criado não vai surtindo o efeito que ele imaginava em termos de aprovação”, afirma.

Mas o maior problema, segundo ele, é que a expansão não ocorre apenas por meio de gastos tradicionais do Orçamento. Parte relevante das iniciativas utiliza mecanismos de crédito subsidiado, fundos garantidores e outras operações parafiscais que têm impacto limitado sobre o resultado primário, mas ampliam a dívida bruta e aumentam a percepção de risco fiscal.

“Isso só aumenta o desafio fiscal do próximo governo”, afirma o economista. Segundo ele, o crescimento acelerado das despesas, combinado ao uso crescente de operações parafiscais e crédito subsidiado, cria um quadro de deterioração gradual das contas públicas.

Para França, embora a situação atual ainda não tenha atingido os níveis observados na década passada, a trajetória começa a lembrar o ambiente que antecedeu a crise fiscal do segundo mandato de Dilma Rousseff. “O desastre só não será maior que o de Dilma, após a reeleição em 2014.”

Medida pode falhar nas urnas, avalia estrategista eleitoral

Os bilhões desembolsados pelo Planalto ainda não tiveram efeito correspondente na corrida eleitoral. A aprovação do presidente vem avançando lentamente nos últimos meses, mas sem a mesma dimensão.

Entre abril e junho, a aprovação do governo avançou quatro pontos percentuais, de 43% para 47%, segundo a Genial/Quaest. A pesquisa ouviu 2.004 eleitores presencialmente entre os dias 5 e 8 de junho de 2026. A margem de erro é de dois pontos percentuais e o nível de confiança é de 95% (Registro no TSE nº BR-07661/2026).

A melhora coincide com a ofensiva de “bondades”, mas ainda não foi suficiente para reverter integralmente a desaprovação dos eleitores, que caiu apenas um ponto percentual, de 49% para 48% no mesmo período.

Segundo a própria Quaest, Lula continua liderando, mas a disputa permanece competitiva e depende justamente dos eleitores sem alinhamento ideológico rígido, que costumam oscilar conforme a conjuntura econômica e os temas de curto prazo.

Estratégia de Lula é redistribuir dívida, diz especialista

Por isso, na avaliação de Reis, a campanha deverá tentar cercar o eleitor por todos os lados. A estratégia, no entanto, embute riscos.

Diferente daquela adotada nos primeiros governos petistas, quando o principal instrumento político era a transferência direta de renda, o governo passou a apostar em outra frente por conta das maiores restrições fiscais e da influência do Congresso sobre parte relevante do orçamento discricionário.

“O Lula está redistribuindo dívida, melhorando a situação, fazendo com que a população possa negociar”, diz.

O problema, segundo ele, é que o sentimento gerado pela renegociação pode mudar ao longo do tempo. O eleitor que hoje comemora o alívio financeiro poderá chegar à eleição convivendo com as parcelas do acordo.

“Ele vai estar pagando isso em outubro. O risco é que o peso das prestações acabe substituindo a sensação inicial de benefício”, diz.

Como a legislação eleitoral limita a criação de novos programas durante a campanha, na prática, afirma, a equipe de Lula tenta antecipar agora medidas capazes de produzir efeitos políticos no futuro, mas sem garantia de que elas permanecerão presentes na memória do eleitor até outubro de 2026.

Medida voltada a trabalhadores por aplicativos tem lógica diferenciada

Já o programa de crédito voltado a motoristas de aplicativo e trabalhadores autônomos, na avaliação de Reis, segue uma lógica “mais inteligente” do ponto de vista eleitoral, porque prevê um período de carência, fazendo com que o início dos pagamentos ocorra apenas depois das eleições.

“A pessoa recebe o dinheiro agora, mas só começa a pagar depois”, diz.

Ainda assim, o estrategista eleitoral vê obstáculos para a conversão do benefício em votos. Motoristas de aplicativo, entregadores e trabalhadores por conta própria formam um grupo com perfil político distinto, mais refratário à regulação estatal e às políticas petistas.

“Essa geração do Uber é mais inclinada a valores ligados à autonomia individual, ao empreendedorismo e à rejeição de formas tradicionais de organização coletiva”, diz.

“Além disso, costumam acompanhar mais de perto questões econômicas e perceber com maior facilidade os efeitos dos juros elevados, da inflação e do custo do crédito sobre a renda.”

Campanhas veem disputa em aberto

A percepção de que parte desses grupos recebe os benefícios sem necessariamente alterar suas preferências eleitorais ajuda a explicar por que os ganhos de popularidade do governo seguem abaixo do esperado.

O levantamento da Genial/Quaest divulgado em 10 de junho mostrou Lula com 39% das intenções de voto no primeiro turno, contra 29% de Flávio Bolsonaro. Em um eventual segundo turno, a vantagem é de seis pontos: 44% a 38%.

Embora Lula apareça atualmente entre cinco e sete pontos à frente de Flávio, no mesmo estágio da disputa de 2022 o então presidente Jair Bolsonaro registrava uma desvantagem de cerca de dez pontos em relação ao petista.

Segundo Reis, a campanha de Lula estava bastante desanimada até cerca de 45 dias atrás. A situação melhorou após a divulgação do áudio envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro. Mas, na avaliação do estrategista, a expectativa era de que o episódio produzisse um impacto maior nas pesquisas e permitisse a Lula abrir uma distância mais ampla sobre o adversário.

A avaliação da equipe de Flávio segue uma lógica distinta. Segundo Reis, a campanha opera em uma atmosfera que mistura otimismo e senso de oportunidade, com a percepção de que a eleição tende a ser pulverizada por um grande número de candidatos.

Na leitura de aliados do senador, o objetivo não é liderar o primeiro turno, mas garantir uma vaga na etapa decisiva da disputa. Em um cenário com muitos candidatos, a barreira para chegar ao segundo turno tende a cair.

Com uma base bolsonarista considerada consolidada em torno de 15% do eleitorado, a campanha acredita precisar conquistar apenas uma parcela adicional dos votos flutuantes para assegurar presença na fase final da eleição.

“A conta deles é a seguinte: se a eleição tiver muitos candidatos, com algo próximo de 20% dos votos você passa para o segundo turno. Eles entendem que já têm um núcleo duro do eleitorado e precisam buscar mais cinco pontos”, afirma.

Informações Gazeta do Povo

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