A história que precisava ser contada: o dia em que Brasília tremeu, os Três Poderes sangraram e uma vice-governadora, viu de perto a tentativa de transformar um ato de vandalismo em pretexto para um ajuste de contas político.
Era 8 de janeiro de 2023. O Brasil ainda digeria a posse de Luiz Inácio Lula da Silva, ocorrida uma semana antes.
Na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, uma multidão de manifestantes bolsonaristas, muitos vindos de acampamentos que se arrastavam desde o fim do governo anterior, invadiu e depredou as sedes do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal.
Vidros estilhaçados, móveis destruídos, documentos rasgados, obras de arte danificadas. Imagens de barbárie que chocaram o país e o mundo.
O que começou como protesto contra o resultado eleitoral transformou-se, em poucas horas, num dos episódios dantesco da República recente.
Doze dias depois de assumir o governo do Distrito Federal, na sequência do afastamento de Ibaneis Rocha para disputar uma vaga ao Senado, Celina Leão rompeu o silêncio de forma bombástica sobre o 8 de janeiro.
No programa “Vozes da Comunidade”, apresentado pelo jornalista Toni Duarte, levado ao ar ao vivo pelo YouTube, ela abriu o verbo e entregou uma versão que derruba frontalmente a narrativa oficial cristalizada pelo governo petista e por parte da imprensa.
O telefonema que mudou tudo
Celina Leão estava em casa quando o telefone tocou. Do outro lado, o presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira (PP-AL).
“O Congresso está sendo invadido. Não conseguimos contato com o governador Ibaneis Rocha. O ministro Flávio Dino pretende afastar vocês imediatamente dos cargos.”
Eram as primeiras horas da crise. Por volta das 15h30, a vice-governadora dirigiu-se à residência oficial do governador.
Ibaneis, ainda no exercício do cargo naquele momento, determinou que ela assumisse o comando das operações em nome do Governo do Distrito Federal, enquanto ele próprio gerenciava outros aspectos da crise.
Celina comunicou ao ministro da Justiça, Flávio Dino, que seguia para o local por determinação expressa do governador.
Ao chegar ao Ministério da Justiça, os prédios dos Três Poderes já haviam sido invadidos. A partir dali, segundo seu relato, manteve contato constante com o coronel Klepter Rosa Gonçalves, da Polícia Militar do DF, monitorando a situação e tentando reverter o caos.
Dino foi direto: “Você e o seu governador serão afastados”. Celina respondeu: “Até isso acontecer, eu ainda sou a vice-governadora e estou aqui para resolver a situação. Fui muito dura também”.
A desocupação, enfatiza Celina, foi realizada exclusivamente pela Polícia Militar do Distrito Federal. Depois da operação, Dino informou que consultaria o presidente Lula sobre o afastamento, medida que, segundo ela, precisaria de aprovação do Congresso Nacional.
Como ex-coordenadora da bancada feminina e parlamentar experiente, Celina sabia que não havia base legal para tal medida drástica.
Após uma reunião a portas fechadas, o ministro recuou no afastamento, mas decretou intervenção federal na segurança pública do DF.
A narrativa que Celina rejeita
A governadora rejeita com veemência duas versões que se consolidaram nos anos seguintes: A de que ela estaria “alinhada” ao ministro Flávio Dino. “Minha atuação foi ao lado da minha Polícia Militar”, afirma.
A de que os atos configuravam uma tentativa de golpe de Estado organizada. Para ela, tratou-se de “um ato de vandalismo, sem liderança ou organização típica de um golpe”.
Celina defende que a história fará justiça aos policiais militares do DF, que, segundo ela, atuaram sob risco extremo.
Hoje, muitos desses profissionais enfrentam prisões, processos, dificuldades financeiras e o que ela classifica como “injustiças”.
Cita penas desproporcionais, como 17 anos de prisão por “casos simples”, e manifesta confiança em que o Congresso, futuramente, conceda anistia aos policiais e cidadãos condenados.
O pano de fundo para derrubar o governo do DF
Nos bastidores que Celina descreve, emerge uma suspeita grave: o PT teria visto nos atos de 8 de janeiro uma oportunidade de ouro para enfraquecer e derrubar o governo do DF e consolidar o controle sobre a segurança da capital federal.
A intervenção federal, decretada por Lula poucas horas após os fatos, retirou da PMDF o comando da segurança e colocou um interventor federal no lugar. O governador foi afastado por decisão de Alexandre de Moraes.
Celina assumiu interinamente em meio ao turbilhão. A versão oficial, repetida à exaustão pelo governo Lula e por veículos alinhados, pintou o 8 de janeiro como uma “tentativa de golpe” orquestrada ou tolerada por bolsonaristas, com omissão deliberada das autoridades locais.
Celina contrapõe: o vandalismo existiu, mas foi usado politicamente para um ajuste de contas maior. E a PMDF, que diz ter sido fundamental na retomada, pagou o preço mais alto.
O legado controverso
Três anos depois, o episódio ainda divide o Brasil. De um lado, a narrativa de defesa da democracia contra o extremismo.
De outro, a acusação de que o governo Lula aproveitou o caos para expandir o controle sobre instituições e perseguir adversários políticos, incluindo policiais que, segundo Celina, arriscaram a vida para conter a multidão.
A governadora, que assumiu definitivamente o GDF há exatos doze dias após a renúncia de Ibaneis para disputar a senatória, posiciona-se como testemunha ocular dos fatos.
Sua fala no “Vozes da Comunidade” não é apenas um depoimento pessoal: é um desafio direto à versão oficial que prevaleceu nos tribunais e na grande mídia.
A história contada por Celina Leão é uma releitura dos fatos, que pode servir para uma eventual revisão pelo Congresso, como ela mesma sugere.
Por enquanto, o que fica é o retrato de um dia que expôs as feridas profundas da polarização brasileira: uma massa enfurecida que invadiu os símbolos da República, um governo federal que orquestrou a derrubada do governo local e uma vice-governadora que reagiu firme no olho do furacão.
A história, como ela mesma disse, ainda será contada. E, para muitos, a versão de Celina Leão é exatamente aquela que precisava ser ouvida.
Fonte: RadarDF


