Diálogos extraídos de celulares apreendidos pela PF mostram conversas sobre estratégia envolvendo a companheira de Galípolo
Há processos que se sustentam em depoimentos. Outros, em perícias. O caso Master/BRB avança por outro caminho: o da memória digital.
O Fatos Online teve acesso, com exclusividade, ao conteúdo de um HD de 1 terabyte que integra os autos da investigação conduzida pela Polícia Federal. O material reúne mensagens, documentos, fotografias, vídeos e arquivos extraídos de aparelhos eletrônicos apreendidos durante a investigação. É desse acervo que emergem diálogos que ajudam a reconstruir os bastidores de um dos maiores casos financeiros em apuração no país.
Entre milhares de arquivos, um conjunto de conversas chama atenção por colocar no centro das discussões o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, a pessoa identificada pelos interlocutores como sua namorada, Elisa Veeck e a Revista IstoÉ.

Nas mensagens, Thiago Miranda não fala em contatos ocasionais. Fala em uma “cartada”. A expressão aparece mais de uma vez e sempre associada à mesma pessoa.
Em um dos diálogos, escreve: “Temos uma cartada em último caso com o Galípolo”. Na sequência afirma que “a mulher dele é muito amiga minha”, reforça com “MUITO mesmo”, acrescenta que ela seria “nossa funcionária na IstoÉ” e conclui: “Se for preciso usarei todas as armas que tenho. Não mediremos esforços”. Daniel Vorcaro responde: “Obrigado, amigo”.

Dias depois, o assunto retorna. Thiago Miranda afirma que a companheira de Gabriel Galípolo estaria “muito feliz trabalhando na IstoÉ” e acrescenta que também teria sido contratada para atuar em uma clínica ligada ao grupo. Daniel Vorcaro responde que “ainda não usamos seu canhão”.
O tema não desaparece. Em agosto de 2025, volta ao centro das conversas. Thiago Miranda escreve: “Tenho uma cartada que é a namorada dele”, afirma que ela seria “de dentro da minha casa” e que poderia conversar diretamente com ela. Daniel Vorcaro recomenda cautela. Thiago responde que pretendia utilizar essa possibilidade apenas como “última opção”. A resposta de Vorcaro é curta: “Mas a última opção é agora”.

Os diálogos também registram Thiago Miranda orientando Daniel Vorcaro antes de uma conversa com Gabriel Galípolo. Nas mensagens, menciona uma suposta movimentação da imprensa e sugere argumentos que, segundo ele, deveriam ser apresentados ao presidente do Banco Central.

As conversas integram o material apreendido pela Polícia Federal e hoje fazem parte dos autos da investigação. Seu conteúdo revela como os próprios interlocutores descreviam estratégias e canais de relacionamento considerados relevantes naquele momento. O significado jurídico dessas mensagens, assim como eventual alcance de seus efeitos, permanece sujeito à análise das autoridades responsáveis pelo caso e do Poder Judiciário.

É justamente por estarem inseridos nos autos que esses diálogos deixam de ser simples conversas privadas para adquirir interesse público. Eles ajudam a compreender o ambiente em que decisões, articulações e estratégias eram discutidas nos bastidores de um caso que continua produzindo desdobramentos.


