O PT adora manifestos. E não é à toa. Faz parte da tradição burocrática dos partidos de esquerda transformar qualquer reunião em um documento cuidadosamente redigido.
Esse tipo de texto quase sempre tenta cumprir três objetivos: reforçar a ideologia do grupo, empolgar a militância e passar uma imagem de responsabilidade para quem está de fora.
O 8º Congresso Nacional do partido, encerrado no último domingo (26), seguiu exatamente esse roteiro. O registro final, no entanto, acabou revelando muito mais o medo dos petistas de fracassar nas próximas eleições do que um projeto coerente para o futuro do país.
O manifesto aprovado evita qualquer desgaste com o “centrão” e o mercado. Além disso, informações de bastidores indicam que o escândalo do Banco Master, citado em versões iniciais como exemplo da corrupção no sistema financeiro, evaporou do documento na última hora — para evitar embaraços a aliados e integrantes do próprio partido.
Mas não se engane: o radicalismo petista continua ali, organizado e reafirmado com clareza, apesar do verniz eleitoreiro.
Não por coincidência, a redação foi conduzida pelo núcleo duro da legenda, com destaque para José Dirceu, responsável justamente pelo eixo chamado de “Programa” (o “coração” do documento). Ou seja, a direção ideológica segue intacta.
De terno e gravata
Na camada mais profunda do novo manifesto, os petistas reforçam suas pautas históricas — a superação do capitalismo e a defesa do “socialismo democrático” (uma expressão conhecida por juntar duas palavras que, no mundo real, nunca conviveram pacificamente).
Já a camada intermediária traz uma agenda de reformas em diferentes áreas: Judiciário, comunicação, plataformas digitais, questão agrária, jornada de trabalho). Tudo para mobilizar as bases e manter aquela linguagem de confronto típica do partido.
Por fim, na camada mais visível, surge o PT “moderado”, de terno e gravata. É a parte do texto em que a legenda finalmente se posiciona como governo e tenta transmitir estabilidade, governabilidade e seriedade econômica.
A seguir, separamos o que é discurso ideológico e o que é cálculo político no documento do PT — e onde termina a conversa de campanha e começa, de fato, o projeto de poder.
Onde está o PT de sempre
O socialismo saiu do armário
Inicialmente, a palavra “socialismo” só aparecia de forma discreta, no último parágrafo do texto. Na versão final, ela foi promovida para o centro do manifesto: as reformas estruturais do partido passaram a ter como “horizonte programático” o já citado “socialismo democrático”. Alguém no PT quis garantir que não houvesse dúvida sobre para onde o partido quer levar o país.
Tchau, capital!
O documento afirma, sem rodeios, que o projeto petista busca “superar os limites do capitalismo brasileiro”. Não é uma figura de linguagem nem uma herança perdida do estatuto dos anos 80 — e sim a diretriz oficial do partido que quer continuar governando o Brasil em 2027. Não custa lembrar: historicamente, experiências de “superação do capitalismo” sempre vêm acompanhadas de muito sofrimento para o povo.
Juiz que joga junto
O PT agora propõe uma reforma do Poder Judiciário “visando à democratização” das cortes. Soa bonito, mas no dialeto da esquerda isso significa tornar juízes e ministros mais abertos a cooperar com quem está no poder. O Judiciário independente existe justamente para dizer não ao governo quando ele passa dos limites — e é esse “não” que o projeto tenta deixar mais difícil.
Imprensa, um problema a resolver
O texto fala em “reforma da comunicação” para garantir o “cumprimento da Constituição que proíbe monopólios”. O argumento parece técnico, mas quem vai definir o que é monopólio? O governo. Quem vai indicar os reguladores? O governo. Até aí, nenhuma novidade: controlar a imprensa é um dos sonhos mais antigos do PT.
Um monstro chamado big tech
O manifesto denuncia que “a democracia liberal tornou-se terreno de disputa desigual” por culpa das big techs e propõe a “ampla regulamentação dos oligopólios”. O problema é que, quando o PT fala em regular a internet, as experiências recentes do governo sugerem outra prioridade. A preocupação é menos com a proteção do usuário e mais com o controle do que circula nas redes — especialmente do que circula contra o próprio governo.
Saudade do Maduro
Os petistas criticam a política externa de Donald Trump e qualquer “aliança com Israel nos violentos processos de ocupação territorial”. Mas festejam os BRICS como alternativa ao Ocidente (um grupo que inclui a Rússia, invasora do Ucrânia, e o Irã, financiador do Hamas). Vale destacar uma cena emblemática do congresso, em que delegados do partido exibiram um banner pedindo a libertação de Nicolás Maduro. É a política externa do PT sem filtro.
Menos trabalho, mais soberania
O fim da escala 6×1 é apresentado como o “núcleo de um projeto de país soberano”. Ou seja, trabalhar menos virou uma questão de independência nacional. É uma ideia que exige alguma ginástica intelectual para fazer sentido, mas funciona bem para animar os militantes.
Um Brasil sem alma
Em mais de três mil palavras sobre o futuro do Brasil, o manifesto do PT não menciona uma vez sequer as palavras “família”, “religião”, “fé” ou “tradição”. O ser humano que aparece no documento não tem raízes, crenças, filhos — apenas direitos para reivindicar e um Estado para bancar tudo. Para um partido que governa um país no qual cerca de 90% da população se declara religiosa, esse silêncio parece menos um descuido e mais uma escolha.
Cantinho identitário
O PT se compromete com o “fim de todas as formas de discriminação e preconceito”. Do jeito que está escrita, a frase é aberta o suficiente para acomodar qualquer agenda identitária depois da eleição. É a ala woke do partido garantindo sua cota no texto.
O PT em campanha
Administrador responsável (quem diria)
O manifesto comemora o déficit menor e volta das reservas internacionais. O que já foi tratado como “submissão ao mercado” virou motivo de orgulho. É o PT escrevendo, com cuidado, um recado direto para quem financia e observa a economia.
Agro amigo
A safra bate recorde, o crédito cresce e o agronegócio aparece como parceiro. O mesmo setor que muitas vezes é alvo de críticas entra no texto como parte da solução — uma mudança de tom para não comprar briga (ou abrir uma rápida trégua) com o principal motor da economia brasileira.
Empresário convidado
O documento fala em juntar empresários, trabalhadores e movimentos sociais no mesmo projeto. O antigo vilão da narrativa vai ganhar uma cadeira em volta da mesa. Pelo menos até passar a eleição.
Taxar sem assustar
O PT insiste em cobrar mais dos ricos, mas agora com moderação. O documento também promete um alívio em tributos que afetam empresas. É um ajuste malandro: o suficiente para sustentar o discurso de “justiça tributária”, mas sem mexer de verdade na máquina que já arrecada demais.
Reclama, mas usa
O texto ataca o modelo de emendas parlamentares, porém não promete acabar com ele. Só diz que quer “mudar”. Critica o jogo, mas segue jogando.
O gestor quer seu voto
Turismo em alta, mais gente voando, economia girando. O manifesto usa sem constrangimento indicadores típicos de mercados que funcionam bem. Aqui, a mensagem não é para a militância, a Faria Lima ou o “centrão” — e sim para o eleitor da vida real, que não está nem aí pra ideologia, BRICS, Maduro ou a última lacração da internet. Em outubro, a gente vê se funcionou.
Gazeta do Povo


