A 17 dias das urnas, Lula turbina Bolsa Família e deixa conta de R$ 90 bilhões para o próximo governo

Reajuste de 15,04% foi anunciado na reta final da eleição, quando pesquisas mostram disputa apertada entre Lula e Flávio Bolsonaro. Medida não estava prevista no Orçamento de 2027 enviado ao Congresso em 31 de agosto

Faltando apenas 17 dias para o primeiro turno das eleições, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) resolveu abrir o cofre e anunciar o primeiro reajuste do Bolsa Família de seu atual mandato.

O benefício mínimo passará de R$ 600 para R$ 691 — aumento de 15,04% — e começará a ser pago com o novo valor em outubro. Segundo o governo, a correção recompõe a inflação acumulada desde 2023. O momento escolhido para anunciá-la, porém, inevitavelmente coloca a decisão no centro da disputa eleitoral.

Afinal, o reajuste chega justamente quando Lula disputa a reeleição e pesquisas recentes mostram uma corrida bastante apertada contra o senador Flávio Bolsonaro (PL). Levantamentos divulgados em setembro apresentam cenários diferentes no primeiro turno, mas vários deles registram empate técnico entre Lula e Flávio numa eventual disputa de segundo turno. AtlasIntel/Bloomberg, Quaest e BTG/Nexus estão entre os levantamentos recentes que apontaram esse quadro.

É nesse ambiente que uma pergunta política se torna inevitável: por que o reajuste somente agora, às portas da eleição?

Uma conta que atravessa a eleição

A discussão não envolve apenas o calendário eleitoral.

Segundo dados divulgados pelo próprio Ministério do Planejamento e reproduzidos pela Gazeta do Povo, a medida acrescentará cerca de R$ 22,7 bilhões por ano às despesas do programa. Projetado para os quatro anos do próximo mandato presidencial, o custo adicional fica na casa dos R$ 90 bilhões, embora o valor efetivo possa variar conforme o número de beneficiários, futuros reajustes e eventuais alterações no programa.

Somente em 2026, o impacto adicional estimado é de R$ 5,8 bilhões.

Ou seja: a decisão é tomada agora, faltando pouco mais de duas semanas para o eleitor ir às urnas, mas seus efeitos fiscais avançam muito além de outubro.

E existe outro detalhe que chama atenção.

Se era prioridade, por que ficou fora do Orçamento?

O governo encaminhou ao Congresso Nacional, em 31 de agosto, sua proposta de Orçamento para 2027.

Naquela peça orçamentária, apresentada apenas algumas semanas antes do anúncio do reajuste, não havia previsão para elevar o piso do Bolsa Família de R$ 600 para R$ 691.

A sequência dos acontecimentos alimenta o questionamento político.

No fim de agosto, o governo apresenta ao Congresso a previsão das receitas e despesas para o próximo ano sem incluir o aumento. Em 17 de setembro, a 17 dias da eleição, anuncia um reajuste de 15,04%.

O ministro do Planejamento, Bruno Moretti, afirma que há espaço fiscal para bancar a medida e que a proposta orçamentária será ajustada para incorporar a nova despesa. Segundo o governo, portanto, o aumento pode ser acomodado sem romper os limites fiscais previstos.

Ainda assim, permanece uma questão legítima no debate público: o que mudou entre 31 de agosto e 17 de setembro para transformar um reajuste ausente da proposta orçamentária em uma prioridade imediata?

2022 está logo ali na memória

A controvérsia fica ainda mais interessante quando se olha para trás.

Em 2022, Jair Bolsonaro, então presidente e candidato à reeleição, também aumentou um programa de transferência de renda às vésperas da disputa presidencial.

O Auxílio Brasil passou de R$ 400 para R$ 600. O acréscimo, entretanto, tinha validade inicialmente estabelecida somente até dezembro daquele ano.

Naquela ocasião, integrantes do PT foram duros nas críticas ao governo Bolsonaro.

O próprio partido classificou as medidas como eleitorais e sustentou publicamente que Bolsonaro utilizava benefícios sociais na proximidade das urnas. Em publicação de julho de 2022, o PT chegou a chamar a iniciativa de “PEC eleitoreira”, argumentando que os benefícios terminariam depois das eleições.

Gleisi Hoffmann, então presidente nacional do PT e hoje integrante do governo Lula, também acusou Bolsonaro de oportunismo eleitoral por aumentar Auxílio Brasil, vale-gás e criar benefícios para caminhoneiros próximo à eleição. A declaração foi recuperada pela Gazeta do Povo ao comparar os dois episódios.

Quatro anos depois, o calendário produz uma ironia difícil de ignorar.

Em 2022, aumentar um benefício social a poucos meses da eleição foi tratado por adversários de Bolsonaro como uma iniciativa eleitoral. Em 2026, o governo Lula anuncia aumento permanente do Bolsa Família 17 dias antes da votação.

As circunstâncias fiscais e jurídicas não são idênticas, e essa diferença precisa ser registrada. Mas a comparação política é inevitável porque o argumento central utilizado em 2022 era justamente o momento escolhido para ampliar benefícios sociais.

O benefício é necessário; o calendário é que merece explicação

É importante separar duas discussões.

Milhões de brasileiros dependem do Bolsa Família para despesas básicas, e a inflação corrói o poder de compra dessas famílias. O governo sustenta justamente que os 15,04% representam a recomposição da inflação acumulada desde março de 2023.

Questionar o momento da decisão, portanto, não significa questionar a necessidade das famílias beneficiárias.

O ponto político é outro: por que uma recomposição que poderia ter sido discutida anteriormente foi anunciada justamente 17 dias antes de uma eleição presidencial disputada e depois de o próprio governo encaminhar ao Congresso um Orçamento para 2027 sem contemplá-la?

A proximidade das urnas transforma uma decisão social e econômica em uma questão eleitoral impossível de ignorar.

O precedente de 2022 torna o episódio ainda mais incômodo para o governo. Quem naquele momento acusou Bolsonaro de utilizar benefícios sociais na corrida pela reeleição terá agora de explicar por que o mesmo critério político não deveria ser colocado em discussão diante de uma decisão tomada ainda mais perto da votação.

No fim das contas, existe uma diferença particularmente relevante: a eleição termina em outubro; a despesa permanece depois dela.

Se mantido nos níveis estimados atualmente, o reajuste acrescentará aproximadamente R$ 90 bilhões às despesas ao longo dos quatro anos seguintes. E essa conta ficará para quem ocupar o Palácio do Planalto — seja Lula, Flávio Bolsonaro ou outro candidato escolhido pelos brasileiros nas urnas.

Da redação com informações Gazeta do Povo

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