O vídeo que confronta a versão de Moraes: ministro e esposa aparecem em jatinho ligado a Vorcaro

Imagens divulgadas por Lauro Jardim mostram Alexandre de Moraes e Viviane Barci deixando um Legacy 650, prefixo PP-NLR, ligado ao ex-controlador do Banco Master; ministro já havia afirmado que jamais viajara em avião de Daniel Vorcaro e reiterou a negativa após a divulgação do registro

Uma imagem pode não ser suficiente para provar uma irregularidade. Mas pode ser suficiente para exigir explicações muito mais detalhadas.

É exatamente essa a situação criada neste domingo (20) pela divulgação de um vídeo obtido pelo jornalista Lauro Jardim, de O Globo. As imagens mostram o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, e sua esposa, a advogada Viviane Barci de Moraes, desembarcando de um jatinho Legacy 650, prefixo PP-NLR, no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro.

O registro é de 22 de agosto de 2025.

A relevância está na origem da aeronave. Segundo a reportagem, naquele período o avião estava oficialmente em nome de uma empresa ligada a Daniel Vorcaro, então controlador do Banco Master.

É justamente aí que o episódio ganha uma dimensão muito maior.

Meses antes, quando reportagens começaram a revelar viagens realizadas por Moraes e Viviane em aeronaves relacionadas a empresas de Vorcaro ou pessoas de seu círculo, o gabinete do ministro afirmou categoricamente que Alexandre de Moraes “jamais viajou em nenhum avião de Daniel Vorcaro”.

Procurado novamente por O Globo depois da descoberta do vídeo, Moraes manteve sua versão e voltou a negar ter viajado em aeronave pertencente ao banqueiro.

Agora existe um vídeo.

E ele coloca uma pergunta objetiva sobre a mesa: qual era exatamente a relação jurídica e operacional entre aquele Legacy 650, Vorcaro, a empresa proprietária, a PrimeYou/Prime Aviation e o serviço utilizado pelo casal?

O problema deixou de ser apenas uma troca de versões

A existência do vídeo não demonstra, por si só, que Moraes tenha recebido qualquer benefício irregular de Vorcaro.

Também não comprova que o banqueiro estivesse presente no voo, tampouco que o ministro tivesse conhecimento sobre a estrutura societária da aeronave.

Essas distinções são fundamentais.

Mas o registro adiciona um elemento material à controvérsia.

Em março deste ano, documentos obtidos pela Folha de S.Paulo já indicavam que Moraes e Viviane haviam utilizado jatos executivos de empresas de Vorcaro ou relacionadas a ele entre maio e outubro de 2025. Na ocasião, o gabinete classificou as informações como falsas e declarou que Moraes nunca havia viajado em avião de Vorcaro.

A explicação apresentada pelo escritório Barci de Moraes foi diferente: afirmou contratar serviços de táxi aéreo de diversas empresas, entre elas a Prime Aviation, e sustentou que isso não representava vínculo pessoal com proprietários das aeronaves. O escritório também afirmou que Daniel Vorcaro e Fabiano Zettel não estavam presentes nos voos mencionados.

Essa diferença é importante.

Uma coisa é viajar gratuitamente em uma aeronave oferecida pessoalmente por um empresário. Outra é contratar regularmente uma companhia de táxi aéreo que opere determinado avião.

Por isso, o vídeo aumenta a necessidade de esclarecimento, mas não resolve sozinho essa questão.

Legacy 650 aparece também nas mensagens investigadas pela PF

O problema se torna ainda mais delicado porque o PP-NLR não aparece isoladamente no caso.

A Polícia Federal encontrou no celular de Vorcaro mensagens relacionadas à utilização de aeronaves pelo círculo de Moraes.

Em conversa de 16 de julho de 2025, Vorcaro perguntou ao empresário Marcos Matta, ligado à empresa que administrava aeronaves, se “eles” estavam utilizando os equipamentos. Segundo a reportagem de O Globo reproduzida pelo UOL, Matta respondeu que o uso já estava liberado e afirmou que aviões e helicópteros já haviam sido utilizados.

As mensagens ainda mencionavam “Barci” e orientações para que o grupo pudesse continuar utilizando as aeronaves.

A PF também identificou negociações envolvendo um segundo contrato relacionado ao escritório de Viviane Barci.

Segundo o relatório policial, Vorcaro negociou a transferência de cotas de um jatinho e de um helicóptero como parte de um pagamento de até R$ 50 milhões. A minuta previa R$ 40 milhões em cotas das aeronaves e outros R$ 10 milhões destinados aos gastos dos voos.

O escritório de Viviane sustenta que essa segunda proposta não foi aceita, que nada foi assinado e que o vínculo contratual efetivamente existente terminou com a liquidação do Banco Master.

E há uma mensagem particularmente incômoda

Entre os elementos encontrados pela investigação está uma conversa envolvendo a utilização das cotas.

Segundo informações constantes do relatório da PF, Marcos Matta perguntou a Viviane Barci se estavam gostando da utilização das cotas das aeronaves. Ela respondeu afirmativamente.

Em agosto de 2025 — justamente o mês do voo agora registrado em vídeo — uma funcionária também informou Vorcaro de que uma aeronave estava programada para atender “Barci”.

A resposta atribuída ao banqueiro foi uma orientação para que o atendimento fosse mantido.

Esse conjunto de informações não permite concluir automaticamente que houve crime ou vantagem indevida.

Mas torna cada vez mais difícil tratar a questão simplesmente como uma associação fantasiosa entre personagens que não mantinham qualquer tipo de conexão.

O contraste com as negativas anteriores

É aqui que o episódio se torna especialmente sensível para Alexandre de Moraes.

A discussão já não gira exclusivamente em torno de mensagens de terceiros mencionando seu nome.

Agora existem registros de voos, documentos, conversas recuperadas pela Polícia Federal e um vídeo mostrando o ministro e sua esposa deixando justamente uma aeronave vinculada ao universo empresarial investigado.

Ao mesmo tempo, Moraes mantém sua negativa.

Sua defesa essencial é que nunca viajou em aeronave de Daniel Vorcaro. Já o escritório de Viviane afirma que utilizava serviços contratados de empresas de aviação, sem que isso representasse qualquer vínculo pessoal com o banqueiro.

Portanto, a questão que precisa ser esclarecida não pode ser reduzida a uma fotografia ou a alguns segundos de vídeo.

É necessário estabelecer quem era o proprietário efetivo do PP-NLR naquela data, quem operou aquele voo, quem contratou o serviço, quem pagou por ele, quanto foi pago e sob qual contrato a aeronave foi disponibilizada.

Essas respostas podem confirmar a explicação apresentada pelo ministro ou aumentar ainda mais os questionamentos.

Congresso já queria informações sobre o PP-NLR

A aeronave, aliás, já havia despertado interesse parlamentar.

Documento do Senado referente às investigações do caso Master menciona especificamente o Embraer Legacy 650 PP-NLR, operado pela Prime Aviation, e solicita informações destinadas a esclarecer a utilização da aeronave por autoridades e pessoas relacionadas aos investigados.

O requerimento menciona a necessidade de confrontar passageiros, registros de movimentação e documentação mantida pelas operadoras.

Com o surgimento do vídeo, esse tipo de documentação passa a ter importância ainda maior.

A melhor resposta para a controvérsia não está em interpretações políticas sobre as imagens. Está nos registros objetivos do voo.

O vídeo não condena — mas exige respostas

Seria precipitado transformar as imagens divulgadas por Lauro Jardim em prova definitiva de que Alexandre de Moraes recebeu benefício de Daniel Vorcaro.

O vídeo não demonstra isso.

Mas seria igualmente inadequado ignorar o contraste entre aquilo que aparece nas imagens e a contundência das negativas apresentadas anteriormente.

Existe um Legacy 650 de prefixo PP-NLR. Existe um vídeo de Moraes e Viviane desembarcando dessa aeronave. Existem mensagens encontradas pela PF discutindo o uso de aviões e helicópteros. Existe uma negociação documentada envolvendo cotas de aeronaves como parte de uma proposta de pagamento ao escritório de Viviane. E existe uma declaração anterior do gabinete dizendo que Moraes jamais viajou em avião de Vorcaro.

Tudo isso precisa ser conciliado com fatos verificáveis.

Para um ministro do Supremo, principalmente diante de uma investigação que envolve relações entre altas autoridades e um banqueiro posteriormente investigado, a transparência não deveria ser opcional.

Depois do vídeo divulgado por Lauro Jardim, a pergunta já não é simplesmente se Moraes conhecia ou não Daniel Vorcaro. A questão agora é mais concreta: em que condições Alexandre de Moraes e Viviane Barci estavam naquele Legacy 650 e quem, efetivamente, bancou e disponibilizou o voo?

A resposta está nos documentos da aeronave, no contrato do serviço e nos registros financeiros.

E são justamente esses documentos que podem definir se o vídeo representa apenas um voo comercial regularmente contratado — como sustenta a linha de defesa apresentada pelo entorno de Moraes — ou mais um capítulo de uma relação que ainda não foi completamente esclarecida.

Assista no Instagran (newsoeste)

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Da redação informações O Globo (Lauro Jardim)

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